Quatro poemas

Becerra Poems in Portuguese translated by Juan Terenzi
Becerra Poems in Portuguese translated by Juan Terenzi

Read the Brazilian Portuguese translation by translator Juan Manuel Terenzi of the poems ‘Pliegues’, ‘Ese armario…’, ‘Esta guerra que no termina.’, and ‘Fábula’, originally written in Spanish by poet Maria Lorente Becerra.

Becerra looks at the precarious space between the dream and the real, between ‘the creases of a light that opens and shuts.’

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Dobras

nunca soube do meu corpo

era um enxame de fábulas de raízes que se estendiam

em colinas vazias parecidas ao céu e ao trovão

um delírio sonhado pelos que precisavam sonhar-me. eu vivo lá

na música nas dobras de uma luz que se abre e se fecha.

Esse armário…

Recebeu as cinzas do seu pai.
Recebeu-as quando ele ainda estava vivo.
Foi uma antecipação na verdade,
uma advertência.
O homem que as entregou
disse-lhe que devia ser o amor
porque essa caixa pesava muito.
Em outro tempo morria-se no campo aberto
protegido pelo sol
e as flores eriçavam-se
como luzes tresnoitadas
ao pressentir outro corpo
dentro do seu ventre.

Aconteceu em um armário de dois metros
um armário antigo,
leve,
sem corpo.

Cravou um punhal
no peito.

O tempo explodiu sobre a calça jeans,
os álbuns de família,
as promessas cumpridas.

O sangue encharcou as ruas de Cali.
As crianças pularam alegres
dentro desses pântanos
sem perguntar por que
a água era vermelha e espessa.
No céu não tocaram trombetas
não vieram os anjos
a polícia
nem os vizinhos
um grito enlaçou a casa
em um abraço asfixiante. 

Cravou um punhal no peito
e ninguém cantou a sua morte.

A mãe ouviu esse uivo
pensou que fosse o cachorro.
Subiu ao quarto
olhou o armário
a porta fechada
com chave dupla.
O sangue jorrou
sobre o seu vestido branco.

E essa porta
permaneceu fechada por 33 dias.
Os dias necessários
para que toda a casa
ficasse impregnada de flores.

Esta guerra que não termina

Dissipam-se e caem são apenas isso um precipício de milagres que golpeiam as janelas o dia não é triste pela opacidade já conhecemos os segredos os esfolamos a cada manhã em metódicas ações sabemos que um ovo não é um ovo nem sequer uma vida que já não será é a infinita possibilidade de brincar com a morte e com a epifania. Abri a geladeira. Essa porta também poderia estar habitada por um musgo que brilha, um presépio infinito e uma menininha que reinventa uma mitologia. Tudo aquilo que se torna cotidiano nos ignora. Resgatei um ovo para cozinhar. A água rodeou a casa e de repente um alvoroço de metralhadoras detonou a rua. Não quis abri-los. Minha mãe costumava fazer ovos cozidos. Chamava-os de pequenas luas e astros que armazenamos em despensas para que nos sentíssemos mais próximas do céu. Em seguida os quebrava como se estivesse abrindo uma flor. Apenas era preciso que os comêssemos para acreditar naquilo. Eu tive medo, talvez pelas metralhadoras, pelas possíveis mortes, não sei ao certo. Tive três dias de insônia e uma bala quebrou o ovo. Dentro não havia nada. O importante é que eu siga lembrando que sou imensamente feliz.

Fábula

Se vocês querem que eu seja sincera lhes contarei um segredo
Mas por favor, não o digam a ninguém.
Criei com as minhas mãos uma borboleta de papel
E ela voou.

Juan Manuel Terenzi (tr.)

Juan Manuel Terenzi grew up between Brazil and Argentina. He has degrees in Chemical Engineering, Spanish Literature and Philosophy, and he is completing a PhD on Samuel Beckett at the Federal University of Santa Catarina, Brazil. He translated academic articles by Mario Perniola, Anthony Cordingley, Chiara Montino, Lucas Margarit and Daniel Filmus. His poems and short prose have been published on online magazines such as Mallarmargens, Ruído Manifesto and Zunái.

Maria Lorente Becerra

Maria Lorente Becerra is a poet, writer, and filmmaker from Barcelona. She graduated in Philosophy from the University of Barcelona and has written stories and screenplays for cinema and theatre which she has later produced and directed. She helped organise the successful first UtopiaMarkets in Poetry celebrated in Barcelona. Her first poetry collection, Es magia lo que ves, was published by EspasaEsPoesía in 2019. Her work has also appeared in the anthologies In-versa: nueva expresión de mujeres poetas (In-Verso), El libro rojo: vol.9, and 52 semanas (Entropía ediciones). She is currently working on her second collection of poetry and on experimental cinema projects.

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